Os quatro músicos*
Conto tradicional de Portugal
Há muitos anos, vivia numa aldeia um burro já velho que o dono resolveu pôr fora de casa. Só e abandonado, o animal decidiu correr mundo. Tinha andado umas duas léguas, quando encontrou um carneiro muito triste e sem saber o que fazer da vida. Resolvera fugir de casa ao ouvir dizer que o dono tencionava matá-lo para a festa de casamento da filha. Então o burro convidou-o a ir com ele e o carneiro aceitou de bom grado a companhia. Já tinham caminhado muito e a noite estava a cair, quando depararam com um gato, todo remeloso. Ficaram a saber que os donos o tinham expulsado de casa, por ele não gostar de ratos e surripiar os petiscos que a dona preparava para o marido. Passou a noite com o burro e o carneiro e, no dia seguinte, de duo passaram a trio. Seguiram caminho até encontrarem um pobre galo a chorar por não ter casa. É que a dona tratava-o mal, por ele cantar de mais E, antes que o matassem e comessem, resolvera escapar-se. Perguntou o galo aos três amigos se podia acompanhá-los. E como eles acedessem, lá foram os quatro. Estrada fora, o galo não parava de cantar, até que uma ideia lhe bateu na crista: – Cocorocó, cocorocó! E se nós formássemos um quarteto musical, meus amigos? Como todos concordaram, resolveram que o galo cantaria, o burro tocaria bombo, o gato viola e o carneiro ferrinhos. Passaram os dias e o quarteto lá ia ganhando a vida a tocar em festas de aldeia. Certa noite, cheios de frio e não achando lugar onde dormir, avistaram uma luz e decidiram-se a tentar a sorte. Depararam então com uma casinha no monte. Mas, ao espreitarem pela janela, ficaram sem palavras: a mesa estava coberta de comida, e de três baús abertos saíam colares, fios de ouro e pedras preciosas. Entraram a medo e já estavam instalados à mesa, quando ouviram um barulho de vozes. O gato saltou para a cinza da lareira e os outros correram a esconder-se no quintal. As vozes eram de ladrões que acabavam de chegar ao seu esconderijo e que logo se sentaram a comer. Até que um deles quis fumar e, vendo os olhos do bichano brilhar no escuro da lareira, julgou tratar-se de uma brasa e aproximou o cigarro. O gato, que não era para graças, saltou--lhe para cima e arranhou-o com quantas forças tinha: – Socorro que me arranharam todo! Ai, um diabo de unhas compridas! – gritava o ladrão às turras e encontrões a tudo o que estava na sala. Os outros homens, ao ouvirem os gritos do companheiro, e pensando que a casa estava assombrada por fantasmas, apanharam um susto e deitaram a fugir.
* Na Alemanha, também os irmãos Grimm contaram esta história noutra versão, dando-lhe o título Os músicos de Bremen.
João Pedro Mésseder e Isabel Ramalhete (seleção, adaptação e reconto), Contos e lendas de Portugal e do Mundo, Porto, Porto Editora, 2015, pp. 11-14 (texto com supressões)



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